Trilha sonora pra esse texto:
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Assim como outras muitas
histórias começaram nesse dia, esta história também se iniciou no dia 15 de
Fevereiro de 2003, o dia que determinou parte dessa minha existência, parte da
minha caminhada, parte da minha felicidade. Foi nessa manhã de sábado que a
conheci.
Estava começando a dar aula nessa
escola. Era meu primeiro semestre lá e apesar de já conhecer todos os
professores e dominar o método, os alunos seriam novos e isso até hoje, mesmo
depois de tantos anos na profissão, é algo que me deixa apreensiva. Lembro que
minutos antes de entrar na aula, perguntei sobre os alunos pra professora que os
havia lecionado no semestre anterior. Ela me respondeu: “Essa classe é muito
boa e tem a Mari-go-to-hell, muito engraçada, você vai adorar ela.” – Sim,
foram essas as primeiras informações que recebi da criatura.
A turma era realmente muito boa.
Já haviam se formado e o semestre que estudariam comigo seria apenas uma
espécie de extensão focada em prática e fluência no idioma (Inglês, no caso).
Ela chegou atrasada no primeiro dia de aula. Entrou com cara de sono (a mesma
até hoje), cabelo azul e tatuagens nos ombros. Feitas as apresentações
iniciais, ouço uma conversinha lá do fundo da sala e logo em seguida, o
memorável “Ah meu, go to hell!!!” seguido de um “Sorry, teacher” – Essa era a menina de quem haviam me falado.
Sim, gostei dela. Gosto de gente engraçada.
O semestre correu tranquilo,
divertido e desafiador. Precisávamos apresentar uma peça teatral pra escola toda
e o fato de já serem formados trazia uma responsabilidade maior. Seria filmado
e avaliado como um “TCC”. Os alunos escreveram o roteiro, escolheram o
figurino, trilha sonora e montaram o cenário. Foi o meu primeiro trabalho com
teatro e pela primeira vez dirigia uma peça.
E foi no dia dessa apresentação que a gente se viu pela última vez como
aluna/professora. Dissemos ‘goodbye’ e seguimos nossas vidas. Ela, uma menina, começando uma universidade, falando inglês lindamente e cheia de
planos pra vida. Eu, uma jovem professora, casada, promovendo
baladas pra um público alternativo, vendo filmes de arte e pensando no que
fazer pra janta.
Daí, THANK GOD, vieram as
massificações das redes sociais. Orkut e blogs. Muitos. Uma explosão
pré-facebookiana, quando começamos a entender que tudo o que o queríamos era
saber da vida do outro. Nos adicionamos, nos lemos, nos observamos de
longe-perto, como 99% das outras pessoas que fazem parte da nossa rotina
online. E desde sempre, eu gostava daquele jeito espontâneo de falar da vida,
de opinar, de falar mal, de rir. E de nunca esconder nada. Meus perfis são
sempre trancados, desde o falecido ‘leio, respondo e apago’ até hoje. Toda a
minha vida social/virtual é restrita às pessoas que eu escolho ter acesso a
ela. Os perfis dela, lógico, são abertos. Go to hell é assim, um estado de
espírito livre. Porque ela bate no peito e fala ‘hoje eu vou à marcha das
vadias e que se foda’. Não é à toa que hoje somos o que somos. Eu precisava
muito dela pra também bater no peito e dizer que se foda. E não me sentir
culpada por isso. Daí que um dia, no Twitter, tudo aconteceu (de longe, nossa
rede social preferida). Eu lia aquelas coisas que ela postava e pensava o quão
éramos parecidas. E começamos a interagir. Até que fui tirar uma dúvida com ela
e ela me respondeu: “Vem comigo que é só vitória”. E foi. E tem sido. E será se
o universo quiser.
Por quê? Bom, porque ela é uma
das poucas pessoas que respeitam meu silêncio, meus fones de ouvido, meus
pensamentos e minha filosofia. Porque ela também é uma viajante individual,
porque ela também ama Madonna, café, museus e a Rua Augusta. Porque discutimos qualquer tema, opinamos, argumentamos e rimos. Muito. O tempo todo. Porque ela também
procura por praias desertas, trilhas escabrosas e cachoeiras geladas. Porque
somos antagônicas em algumas coisas e isso é divertido. Ela é corintiana - coitada e eu são
paulina - tricampeã mundial. Ela chama meu ídolo de ‘viadinho’ e não acredita em Deus. Mesmo assim
assiste aos jogos comigo e me ouve falando de Espiritualidade por horas sem
reclamar. Porque é pra ela que eu mando as minhas localizações todas as vezes
que estou em alguma situação de risco. Porque a gente ama tomar Frozen Yogurt
na Paulista. Porque ela tem as tatuagens mais lindas que eu já vi. Porque a
intuição dela é do caralho, e eu juro que da próxima vez que ela disser ‘sai fora,
é furada’ eu a ouvirei. Porque temos, taciturnamente, um acordo de não
reclamarmos da mesma coisa por muito tempo. Ou aceitamos ou mudamos. Porque ela
não tem TV, lê Saramago comigo e não liga se eu dormir no meio dos filmes.
Porque ela me ensinou a fazer trilha, a procurar os Buritis, a amar açaí. Porque
quando mais precisei, ela me colocou dentro das suas malas, me levou de férias
pro berço do meu recomeço e me ajudou a resolver as merdas que eu havia me
metido. Porque ela costura. Porque ela pega todos os bichos que encontra pelo
caminho e os cria dentro do seu apartamento de um quarto. Porque ela é
vegetariana e impõe limites no meu cardápio hyper-junkie. Porque somos
permissivas. Porque a gente se mete a modelo e aceita fazer ensaios pseudo-lésbicos
pra amigos fotógrafos. Porque ela é mestre de Yoga e me ensina a respirar. Porque
ela me manda mensagem perguntando como faz ‘tudo’. Porque a gente canta o Hino
Nacional sempre que estamos juntas (?). Porque ela canta e dança as músicas da
MC Carol. Porque andamos quilômetros e quilômetros em todos os lugares que
visitamos. Muitas vezes em silêncio. Muitas outras apenas cantando. Porque ela
é a pessoa que eu mais amo fotografar e a única pessoa com quem mantenho um
blog (não o divulgamos, sorry). Porque eu nunca preciso pedir pra ela não
contar minhas coisas pra ninguém. Porque ela guarda meus segredos, me empresta
seus batons maravilhosos da MAC e me dá sapados de presente. Porque ela me
chama de diaba, velho, mano, ow, bixa, cara, e o meu preferido, ‘tio’. Porque
todas as vezes que eu digo que a amo, ela me responde ‘problema seu’. Porque
juntas, a gente aprende, evolui e progride.
Porque ela é foda.
Feliz Aniversário, irmãzinha. Te
amo – Tá, eu sei, problema meu.