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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Sobre o Paraíso

 
Dizem que se você for uma boa pessoa, não fizer mal a ninguém, trabalhar honestamente e amar o próximo como se não houvesse amanhã, você vai para o céu. Aquele mesmo céu que a gente aprendeu nas aulas de catequese, aquele onde a água é cristalina, os campos são verdes, as pessoas são boas e os bichinhos vivem tranquilamente.  É verdade. Eu não sou nem de longe uma pessoa tão boazinha assim.  Mas de alguma forma o universo me recompensou com uma passadinha no paraíso, só pra me lembrar do quanto ainda vale a pena continuar nesse planeta (lindo).
 
 
Enfim. Quer conhecer o Paraíso? Vá até o Distrito Federal. Em Brasília, saindo do aeroporto vá até a rodoviária, se for de táxi, dá no máximo R$ 30,00, mas também há a opção de ônibus executivos e comuns. A distância é curta, o trajeto leva uns 20 minutos. A viação Real Expresso faz 2 viagens por dia para Alto Paraíso, a estrada é linda e em menos de 4 horas você chega aqui, no melhor cantinho do mundo.

A cidade é pequena, tem todas as características interioranas, num misto de sertanejo e comunidade hippie. Tem estrutura pra turismo, as pessoas são gentis e o ar é puro. Existem pousadas, hotéis, hostels, campings e calçadas pra repousar. A pracinha é charmosa, onde se come a melhor tapioca (pelo menos em minha opinião) e conversa-se em inglês como se estivesse nos EUA. O número de estrangeiros que abandonaram tudo e compraram propriedades é imenso. Diziam que se o mundo acabasse a Chapada dos Veadeiros seria a melhor chance de sobrevivência. Alguns a chamam de “berço do recomeço”. Ironicamente, fiquei sabendo disso dias antes de embarcar nessa aventura, num momento em que tudo que preciso é recomeçar. Novamente, obrigada universo.

Os passeios são infinitos. As trilhas perigosas, as cachoeiras iluminadas e a água abundante, cristalina e gelada. A paz prevalece. Alugue uma bicicleta e vá até Loquinhas. Contrate um guia local e vá até Cristais, Almécegas, Santa Bárbara, Macaquinhos, Vale da Lua, Vila de São Jorge, Quilombo Kalunga. Coma pizza. Ah, a pizza. Tome suco de frutos do cerrado. Beba água da cachoeira. Assista o pôr-do-sol. O nascer do sol. Perca peso e faça suas celulites sumirem nas subidas e descidas, nas grandes montanhas e nos campos vastos.  Não beba álcool. Silencie-se e, acredite, dá pra meditar 24 horas por dia. Saúde o Espírito que vive dentro de você.
Alto Paraíso é assim.
Um lugar para renascer. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Sobre Tito


 
 
Quando ela entrou naquela casa a única coisa que pediu foi pra que ele fechasse as cortinas e a porta, apagasse as luzes e a cobrisse. Precisava se esconder e não havia lugar melhor naquele momento para isso. Ela o olhou com seus olhos de Teresa de Kundera. Olhos adoecidos de um mundo todo. Perdidos e pedindo. Ele entendeu em um meio silêncio, fez o que pediu e se deitou ao lado com seu controle remoto nas mãos. Nada importava naquele momento. Ela estava indo embora e precisava se despedir. Ele, com sua habitual compreensão, sabia que era uma despedida. Não sabia quantos dias ela demoraria lá. Sabia que tudo estava pra mudar, mas mesmo assim, sabia que precisava dela ali deitada de bruços olhando pra ele e tentando sorrir. Tudo doía tanto. Até então ela não havia se dado conta que não se alimentava há dias. Uma fome violenta veio e ele a alimentou. Alívio pro corpo, pra alma e pra mente. O desespero enfraquecia diante de tais cuidados. Foi aí que ela adormeceu. Por quase dois dias seguidos.
Sentiu um cheiro forte de café antes de abrir os olhos. Uma luz fraca entrava pela janela, e a primeira coisa que viu ao despertar foi um cãozinho tentando puxar seu osso que nesse momento estava debaixo dela. Levantou um pouco as costas, o suficiente para ajudar Tito, o cãozinho, a retirar o seu brinquedo. A porta do quarto se abriu e ele entrou, carregando uma xícara de café com leite. “Café fervendo, leite frio e 9 gotas de adoçante. É assim, não é?”, perguntou sorridente. Ela concordou com a cabeça, sorriu honestamente e bebeu dois longos goles de seu desjejum preferido. Leram alguns textos, tentaram escrever alguns poemas. Falaram pouco.  
O dia de ir embora estava próximo e ela precisava sair dali. Uma força parecia a segurar naquele lugar. Passava os dias com o cãozinho, não se alimentava até que ele voltasse do trabalho e cozinhasse algo pra ela. Aquilo não o incomodava. Ele sabia que precisava voltar pra casa e alimentar aqueles dois seres que o aguardavam com tanto carinho. Eles conversavam sobre o dia dele. E ela lia pra ele os melhores textos que havia lido no dia dela. Comentavam o telejornal, se alimentavam, adormeciam juntos e muito cansados.

Até que um dia ele voltou do seu trabalho e ela não estava mais lá. Nenhuma carta, nenhuma mensagem. Tito olhava pra ele, como que dizendo “é, meu amigo... ela se foi”. Ele sentou-se na cama, sentiu o cheiro dela no seu travesseiro e adormeceu. Por dois dias seguidos. Ele sabia que ela estava feliz. E isso bastava.

Acordou, tomou um gole de conhaque e saiu pra trabalhar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Notas da Estrada II - Sobre a Piedade

Almecegas, Alto Paraíso-Goiás
Tende piedade. Nenhuma oração é à toa.
Ninguém perde por rezar
Mesmo que por um ser que não existe.
Ninguém se perde por tentar amar uma criança.
Mesmo que esse ser não exista.
Tende piedade.
Se te engana é porque tem medo.
Se te machuca é porque é covarde.
Se mente é porque ainda não encontrou a sua própria verdade, a sua idade, a sua escolaridade, a sua paternidade. 
Se te fez gastar o pouco de dinheiro que tinha, é porque a avareza lhe tomou a alma.
Se espalha a tristeza por onde passa,
Se enche o próximo de uma falsa esperança,
É porque o vazio prevalece em seu coração. 
Se te humilha é porque está cego pela ambição.


Se apareceu na tua vida é pra você entender a sua grandeza. Se veio, foi pra mostrar a pequenez do ser humano. Aceite. 

Tende piedade.
Liberta-te
Refaça-te

Tende piedade.
Ama-te.
Perdoa-te.

Notas da Estrada I - Sobre a Distância

Quanto mais se viaja, menor fica a bagagem. Menos sapatos, menos volume. Aumentam os livros, as notas rascunhadas nos guardanapos, os buracos nas meias e os hotéis baratos perdidos no meio das estradas. Mantém-se o anonimato. A única coisa que importa ao viajante. A liberdade de não ter que ser ninguém. Ou ser qualquer um.
Quanto mais se viaja, menor é sua bagagem. Chega uma hora que carregamos mais ou menos aquilo que cabe no bolso. Um celular, um maço de cigarros, o documento, o cartão de débito. E toda a coragem do mundo.
O fim do mundo tem um canto. E é nesse cantinho que eu me escondo agora.
Há algumas pessoas dividindo esse espaço gigantesco comigo. Anônimos. Conversam animadamente, apesar de o assunto girar em torno de tristezas. Opto por não falar com ninguém. Exceto esse rapaz de camiseta verde com quem tenho que trocar algumas palavras de vez em quando. Estamos dividindo o único cinzeiro do local. Ele pergunta se pode pegar, e depois devolve. Eu pergunto se posso pegar, depois devolvo.
A estrada é cheia de silêncios. Mas nenhum tipo de constrangimento surge em meio a ele. O silêncio aqui não incomoda ninguém. Todos nós, de alguma forma, viemos buscá-lo.
De vez em quando ouço um assovio. Seja de alguém, seja de algum pássaro. Não se reconhece mais o que é humano ou o que é bicho. São todos livres. Não precisam ser distinguidos.

Os vagabundos circulam. Mas não param aqui. Cumprimentam-nos e seguem seus caminhos cambaleantes. Tentando encontrar equilíbrio onde quase não há. Não pelo lugar, mas pelas escolhas.
A estrada é boa pra esquecer. Mais fácil ainda esquecer quem nunca existiu. Difícil é deixar ir o que é verdadeiro. Porém, se nunca existiu, por que guardar na memória?  “Deu tudo errado, meu senhor. A sua piada não é mais engraçada. O seu personagem é ruim. Em todos os sentidos.“

Hora de guardar apenas o que é real.

Em Alto Paraíso, Goiás.