segunda-feira, 10 de novembro de 2014

About what I am

 

I am
Running through gusty fields
Inhaling, exhaling
Benumbed and glad
I am
Deeming myself worthy of this honor
Seething recollections of youth
Rekindling memories of blessings
Burying dreadful reminiscences
I am
Allowing large waves to rise up and drench me
Accepting that this deliverance is granted
And, finally, being blissful for what I really am:

Free
 




 

  

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Sobre meus fones de ouvido - parte II

 


Caminhar pela cidade sempre procurando um pôr-do-sol novo, o melhor café, o melhor sebo. Ter tempo pra essas coisas é um privilégio de quem tem a alma livre. Pra mim, o Sol sempre é mais lindo quando se põe no Vale do Anhangabaú, o melhor café é sempre o da Livraria Cultura e o Messias é o lugar mais legal pra se passar uma tarde. Sim, essa é minha rota ‘não me encham, hoje eu quero sair só’. Como não amar um lugar onde se pode ver um filme de arte no Cine Sesc a R$ 2,00 ou descobrir 6 esculturas do século passado gratuitamente expostas no centro da cidade? Como não querer estar por aí, de metrô pra cima e pra baixo, vendo Elvis Presley cantando ao vivo na Paulista, subindo e descendo os escadões da Avenida Nove de Julho, ou procurando street art da melhor qualidade?

Não é preciso estar nos melhores restaurantes, nas melhores salas de cinema ou nos shoppings mais badalados (aaargh). Um setlist incrível, uma garrafa d’água, óculos escuros, protetor solar, bilhete único carregado e um bom livro dentro da mochila. Disposição pra descobrir alguma coisa nova e um par de All Star nos pés. Saia do seu bairro. Não aceite companhia de quem não conhece nada além do seu próprio quarteirão. Não se prenda às amarras desse sentimento pequeno de bairrista provinciano.
Poxa, São Paulo é a cidade mais legal do mundo - pelo menos do mundo que eu conheci até agora. Sei que não foi muito, mas foi o suficiente pra eu afirmar isso. Obviamente, ela só é fantástica assim porque eu não passo o tempo todo dentro dela. Gosto de sair pra ter saudades daqui. E claro, quando estou por aqui, continuo procurando o que sempre procuro quando estou nas estradas. Busco caminhos novos, abraços anônimos e parques escondidos onde eu possa ler meu livro em paz. Aprecio a companhia apenas de quem respeita isso.

Seguem algumas fotos feitas nessas minhas andanças, e logo abaixo delas uma pequena seleção pra se ouvir 'in the city'.

 
 






 
 
 



 
An Urban Setlist
Crash Test Dummies - A little something
The Jesus and Mary Chain - April Skies
Faith No More - A Small Victory
Nouvelle Vague - Putain Putain
Club des Belugas - Frankie
Bebel Gilberto - Aganju
Adriana Calcanhotto - Vamos Comer Caetano
Nação Zumbi - O Que Te Faz Rir
Caetano Veloso - Fora da Ordem
Cazuza - Um Trem Para as Estrelas


 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Sobre as Trilhas para Principiantes

Então você descobre que gosta de fazer trilhas. Isso (bem) depois dos trinta anos de idade, quando seu condicionamento físico já não é tão a favor de aventuras de risco e seus pulmões têm a força de um patinho amarelo de borracha, daqueles que a gente brinca numa banheira (num ofurô, no meu caso). Meu treinamento consiste em alguns quilômetros de corridas-trotinho na esteira da academia, caminhadas subindo e descendo a Rua Augusta e idas até o chão nas pistas de dança da vida – forninho eu não carrego não, meus amigos. Sou phynna.  

Este é um relato de alguém que decidiu fazer depois dos trinta, algo que deveria ter feito aos vinte anos de idade. Nessa idade, a única trilha que eu fazia era nos jardins escondidos do Central Park. Quem conhece o lugar sabe que tipo de aventura encontramos nesses remotos anti-turísticos e apaixonantes cantinhos fora do óbvio.

Comecemos pelo óbvio. Como escolher a trilha? Se você é um principiante, pesquise tudo o que puder ANTES de fazer qualquer loucura. Veja se dá pra aguentar, se é íngreme, quanto tempo uma pessoa normal leva pra chegar ao destino (geralmente quem alimenta sites sobre dicas de viagem é alguém altamente treinado pra esse tipo de esporte, então se a pessoa diz que levou 2 horas pra fazer a travessia, você vai levar 5), qual o destino (porque a compensação é exatamente o motivo de se fazer uma trilha) e se não tem muita farofada ou gente com camiseta estampada de Romero Britto cruzando seu caminho.

Mochileiros e Trip Advisor continuam sendo os melhores sites pra pesquisas.

Eu não pesquisei na minha primeira trilha e um passeio ao Rio Aquidauana, Pantanal sul-mato-grossense, acabou virando uma trilha de 3 km dentro da mata fechada, atravessando vazantes e enfrentando uma tempestade tropical. Traumático? Nem um pouco. Os tucanos, as araras, a água gelada do rio, as chalanas, a boiada branca correndo nos vastos campos das imensas fazendas que atravessamos e até o pavor das piranhas fazem parte de uma das memórias mais lindas que tenho.
Depois disso, voltei às trilhas com muita precaução, pesquisa e preparação. Aprendi a montar uma mochila útil para a atividade, (na primeira trilha levei até nécessaire com make), me condicionei, perdi peso e comi muita cenoura e beterraba - nada melhor pra voltar com aquele bronzeado-molho-shoyu pra São Paulo sem ter que gastar um absurdo com bronzeador importado.
Sem mais delongas, e tentando ser o mais objetiva possível (sou geminiana, sorry), vamos ao que interessa. Já sabe aonde vai? Lembre-se de que, se for pra cachoeira, não vá no período de chuvas, ou você não vai entrar em nenhuma. Se for pra praia, evite alto verão. Além de cheio, é caro. Trilha boa de praia é no inverno.  No verão brasileiro, vá às trilhas no inverno canadense. No inverno brasileiro, corra pras trilhas de Punta del Este.  No outono? Trilhas urbanas em jardins – sim, fiz uma em Curitiba de 1 km e meio.  


Vamos lá. Comece com trilhas de um dia, porque acampar já é nível intermediário/avançado. Vista-se com shorts, camiseta e se não tiver ‘walking boots’, tênis de corrida servem. Leve uma mochila com proteção térmica. Tanto pra uma trilha com sol, chuva ou neve, a proteção térmica é importante. Leve duas garrafas de água de 500 ml cheias. Se for pra cachoeira, leve duas a mais vazias, a volta é sempre subida e a sede é mortal. Se for pra praia, não haverá água potável lá (se tiver água pra vender lá, oops, você não está numa praia deserta, escolha mega-fail). O ideal é não ir sozinho pra trilhas de praia, pra poder levar o maior número de garrafas d’água possível. Frutas secas, castanhas e maçãs frescas. Barra de proteína, mini kit primeiros-socorros, uma canga/toalha e chinelos. Repelente, carregador portátil de celular, bússola, protetor solar, um canivete e farolete. Pelo amor de Deus, se não conhece o lugar e não sabe se virar no meio do mato, contrate um guia local. A não ser que você queira se perder e passar uma noite sendo devorada por mosquitos, morrendo de fome ou tentando não ser comida por uma onça. Não, não é porque você assistiu Lost que você vai saber como encontrar o caminho de volta. Você não vai. Isso é sério. Enrole seu celular em plástico filme. Vai por mim.
Agora vai, divirta-se e perca suas celulites. Trilha não combina com bebida alcoólica e cigarro, música alta e conversinha. Chegando lá, faça o que quiser. Mas lembre-se que tem que voltar, então não abusa. 


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Sobre as Estradas

O que é um viajante senão sua estrada? Segue abaixo uma lista dos 12 filmes que mais me encantam. Para serem vistos e revistos. Quantas vezes forem necessárias. Espero que gostem.
 

Uma História Real
"A straight story", David Lynch - 1999

Dez
"Dah", Abbas Kiarostami - 2002
 








Pequena Miss Sunshine
"Little Miss Sunshine", Jonathan Dayton & Valerie Faris - 2006









Viagem a Darjeeling
"The Darjeeling Limited", Wes Anderson - 2007









Na Estrada
"On the Road", Walter Salles - 2012









Diários de Motocicleta
"Diarios de Motocicleta/The Motorcycle Diaries", Walter Salles - 2004









Assassinos por Natureza
"Natural Born Killers", Oliver Stone - 1994









Amor à Queima Roupa
"True Romance", Tony Scott - 1993









E Sua Mãe Também
"Y Tu Mamá También", Alfonso Cuarón - 2001









Priscilla, a Rainha do Deserto
"The Adventures of Priscilla, Queen of Desert", Stephan Elliot - 1994









O Mágico de Oz
"The Wizard of Oz", Victor Fleming, George Cukor, Mervyn Leroy, Norman Taurog & King Vidor - 1939








Thelma e Louise
"Thelma & Louise", Ridley Scott - 1991









Paris, Texas
"Paris, Texas", Wim Wenders - 1984


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Sobre os meus fones de ouvido

 
O que é uma viagem senão sua trilha sonora? Essa pequena sessão de músicas resume o que mais me encanta ouvir enquanto rodo as estradas ou os ares desse planeta que tanto amo - sim, é o único que tenho e por isso, preciso explorar. Não é que eu não aprecio meu lar, afinal todos temos um pouco de alquimista, todos sabemos que a verdadeira felicidade está onde estão nossas raízes. Mas, a vida é muito curta pra ficar parado. Um conselho: saia do seu lugar de origem. Vá aonde ninguém te conhece, porque é só assim que você se encontra. Trabalhe pra ser livre. Dinheiro no colchão mofa. Tente fazer tudo isso sozinho, mas caso queira ir com alguém, que seja uma pessoa que respeite o seu silêncio e seus fones de ouvido.
 
A ROAD SETLIST
  1. 340 - Fairy Tales
  2. Isobel Campbell & Mark Lanegan - Time of the Season
  3. Red Hot Chili Peppers - Road Trippin'
  4. Club des Belugas - The road is lonesome
  5. Lady Gaga - You and I
  6. David Ford - Song for the road
  7. Marisa Monte - Mais uma vez
  8. America - A horse with no name
  9. Dave Matthews Band - Ants Marching
  10. Bjork - Violently Happy
  11. Madonna - Sky fits heaven
  12. Moloko - Fun for me

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Contos da Estrada: Sobre o Menino

Clique aqui: Trilha sonora pra esse conto

Sentou-se no banco daquela igreja, mas não teve coragem de se ajoelhar. Era sempre assim. Ajoelhar-se era um tormento psicológico. Não conseguia e ponto. Um gato dormia logo ali no banco da frente. Curvou-se, pegou aquela bola de pelos e acariciou por um longo tempo. Sentiu os músculos, a respiração e assistiu-o lamber-se inteiro quando se cansou dos carinhos daquelas mãos desconhecidas.  Ambos se levantaram daquele banco e saíram cada um pro seu lado. Nenhum dos dois havia rezado.
Ela ainda sentia uma leve dor que vinha da cintura e ia até metade de suas coxas. Intensificava quando tentava se agachar. Pensou que sairia ilesa daquela falsa santa casa, sem resquício nenhum do que havia feito. Mas crime nenhum é perfeito. A dor era tamanha nos primeiros dias que precisou pedir abrigo naquela comunidade antes de seguir a estrada rumo ao nada. Um animado boiadeiro levava frutas, canja, pão e água fresca até o seu quarto, instalado dentro da casa do patriarca da vila. A senhora que a havia ajudado desde o minuto em que chegara naquele lugar passava de hora em hora pela sua janela, perguntava: ‘tudo bem fia?’ e sumia. Ela afirmava com a cabeça e voltava seus olhos àquela pequena TV no canto do dormitório. 'Em quarenta dias tudo volta ao normal.' E era assim que conseguia alívio para os seus pensamentos antes de adormecer.
Ao final do terceiro dia o sangramento havia parado, a canja do boiadeiro animado fizera efeito e a necessidade de sair daquele lugar aumentava. Estava encantada com a praticidade e a sabedoria interiorana, onde senhoras semianalfabetas preparavam seus próprios remédios e soluções ‘Pra tudo, fia, menos pra morte’. Seu amigo boiadeiro a levou até a autoestrada e aguardou gentilmente até um carro parar e oferecer carona pra ela. ‘Até um dia, moça, Deus há de lhe perdoar. ’ ‘Amém, Seu Zé. ’

***
O riacho era raso, o que tornou o banho ainda mais convidativo. O jovem seminarista que cedera um espaço na sua velha caminhonete preferira ficar sentado embaixo de uma árvore enquanto ela se refrescava um pouco. Ele descascava uma laranja e tentava não olhar pra aquela forasteira, que a pele era tão branca que refletia como um diamante rosado em meio aquelas pedras escuras. Ela percebia seu olhar, porém diante de tamanha fragilidade do momento, preferira ignorar qualquer instante que remetesse a carne. A voz daquela senhora dizendo ‘espera quarenta dias, fia’ não saía de sua cabeça. A única coisa que sua mente enfraquecida guardara daquele momento tão único.
Já no carro, a estrada continuava deserta e os olhares daqueles dois seres se cruzavam nas poucas vezes que algum caronista surgia em meio aquela imensidão. Ele não parou pra mais ninguém. Ele queria apenas ela ali do lado dele, silenciosa e lacrimejante. ‘Você já ouviu alguma confissão?’ ‘Não, nem posso ainda. ’ ‘Não importa, preciso me confessar. ’
A confissão durou 57 km. Ele, em silêncio, ouviu tudo que ela tinha pra dizer. Não sabia o que dizer diante de sua narrativa. Não sabia até onde tudo aquilo era verdade. Mas sentia que precisava ouvir tudo em silêncio, e qualquer interrupção quebraria talvez, o único momento de alívio daquela criatura a quem ele dispusera o seu dia.

A confissão terminou em cima de uma ponte. Ela pediu que ele parasse pra que pudesse fotografar o pôr-do-sol. Respirou fundo, ajoelhou-se, pediu perdão e agradeceu.
A caminhonete seguiu caminho. Ele fez o que ela pediu ao final do quinquagésimo sétimo quilômetro. 'Deixe-me aqui e não olhe pra trás.'

Naquela ponte ficou uma mochila, uma máquina fotográfica e um par de chinelos.
Nenhum dos dois nunca mais foram vistos.
Seu Zé sabe, mas não conta.